sábado, 15 de abril de 2017

RESSURREIÇÃO

                                         

Tenho, para mim, que nunca foi tão necessária a ressurreição.
A ressurreição não é um passe de mágica. Não advém do nada; não irrompe, abruptamente.
É condição de vida e, assim, insere-se no cotidiano de nosso existir.
A dificuldade de ressurgir acontece para nós porque hoje, mais do que nunca, estamos em sistemática programação.
Programados em celulares; programados diante de televisores e fones de ouvido; programados em relações humanas superficiais, pragmáticas e provisórias.
A programação, aliás, como toda programação, fecha-se no estabelecer esquema mental do qual não se pode escapar, esquema mental que, subvertendo valores e conceitos perenes, nos conduz à mediocridade.
Os exemplos florescem.
No quadro político ficamos a pontuar, fulanizando e partidarizando, episódios sucessivos de corrupção e, assim, perdemos de vista a análise sobre o que, realmente, importa analisar: a falência total do atual modelo político brasileiro, para a qual contribuíram e contribuem todos os partidos políticos, e as imprescindíveis e concretas medidas, que se devem adotar para a sua superação e efetivo compromisso com o modelo democrático de deliberação e gestão do que é público, no que desponta em quadro urgentíssimo o proscrever a profissionalização – fim da reeleição em todos os níveis: o mandato popular conferido a alguém por ele só pode ser exercido uma única vez, em período quinquenal – e a familiarização, ou seja, o impedimento por vinte ( 20 ) anos, a contar do fim do desempenho do mandato, de parentes, até o 3º grau, inclusive, do eleito de, concomitantemente, exercerem qualquer cargo eletivo.
No campo econômico-financeiro desponta a supremacia incontrolada do mercado, a ele até se atribuem “humores”, e nessa absolutização do econômico não contam a mulher e o homem na perspectiva de sua integralidade – pessoas dotadas à satisfação de suas necessidades espirituais, intelectuais e corpóreas -, reduzidas que são a meros indicadores da relação custo-benefício.
Que se tenha presente, esse sábio ensinamento de São João Paulo II, na Carta Encíclica Centesimus Annus”:
“Neste sentido, é correto falar de luta contra um sistema econômico, visto como método que assegura a prevalência absoluta do capital, da posse dos meios de produção e da terra, relativamente à livre subjetividade do trabalho do homem. Nesta luta contra um tal sistema, não se veja, como modelo alternativo, o sistema socialista, que, de fato, não passa de um capitalismo de estado, mas uma sociedade do trabalho livre, da empresa e da participação. Esta não se contrapõe ao livre mercado, mas requer que ele seja oportunamente controlado pelas forças sociais e estatais, de modo a garantir a satisfação das exigências fundamentais de toda a sociedade.” (leia-se Carta Encíclica Centesimus Annus nº 35 – pg. 66, grifos do original).
No mesmo diapasão, contundentes palavras do Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, justamente em tópico dedicado à “Economia e distribuição de renda”:
“Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.
203. A desigualdade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral. Quantas palavras se tornaram moléstias para este sistema! Molesta que se fale de ética, molesta que se fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de distribuição de bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho, molesta que se fale de dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça... A vocação de um empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo de vida; isto lhe permite servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos”. ( leia-se Evangelii Gaudium nº 208-209 – pg. 167-168, grifos nossos).
E, conclusivo:
Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento econômico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição de renda, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos”. (Documento citado – nº 204 – pg. 168, grifos nossos).
A morte de Jesus Cristo, ponto de fundamental meditação não só nesta Sexta-Feira santa, que me motiva a este escrito, mas que nunca deve ser apartada de nós, enquanto aqui estivermos, significa a doação gratuita e incondicional, que jamais se constitui em ponto final do viver, mas é expressão lídima da fé, que faz acontecer a contínua ressurreição do nosso eu sempre que estagnado, apodrecido, morto.
Mais uma vez, e para encerrar, colho as palavras do Papa Francisco, na já citada Evangelii Gaudium, a dizer:
“Um dos pecados que, às vezes, se nota na atividade sociopolítica é privilegiar espaços de poder em vez dos tempos dos processos. Dar prioridade ao espaço leva-nos a proceder como loucos para resolver tudo no momento presente, para tentar tomar posse de todos os espaços de poder e autoafirmação. Dar prioridade ao tempo é ocupar-se mais com o iniciar processos do que possuir espaços. O tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os em elos de uma cadeia em constante crescimento, sem retorno. Trata-se de privilegiar as ações que geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e grupos que os desenvolverão até frutificar em acontecimentos históricos importantes. Sem ansiedade, mas com convicções claras e tenazes”. (Documento citado – nº 223 – pg. 178-179 – grifos do original e nossos).

                 Tenham, irmãs e irmãos, Feliz Páscoa!



    

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