sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A DIMENSÃO DO SER

                                   

Lê-se no mais antigo escrito do Novo Testamento, que é a Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses, em exortação final para aquela comunidade:
... examinai tudo e guardai o que é bom”.  (1Ts 5, 21).
É do que, na verdade, necessitamos, principalmente diante da voracidade tecnológica, que tudo reduz ao acelerado imediatismo. Incessantemente conectados, envolvidos no turbilhão dos acontecimentos, anestesiados na superficialidade do que é noticiosamente produzido, perdemos a dimensão do ser.
Perdida a dimensão do ser, a política, que é a expressão da afirmação do bem comum, descamba para o jogo do poder pelo poder, disseminando as mais variadas formas de corrupção.
Sobressai a manipulação. Políticos, consorciados com grandes redes de comunicação social, conspurcam a representação popular. Satisfazem-se todos na farsa da democracia formal porque inexiste qualquer compromisso comunitário e não acontecem atitudes reais e concretas de promoção dos mais necessitados em quadro de acesso amplo à educação e à saúde: permanecem esses, os mais necessitados, na condição de dependentes das benesses oficiais.
Perdida a dimensão do ser, a mulher e o homem degradam-se.
Se eu não tenho o meu ser, como oferecê-lo? Como ser proposta de vida para quem amo? Como amar?
No meu vazio existencial, engano-me buscando preenchê-lo comigo mesmo.
Assim, tantos os desencontros, tantos os abandonos, tanta a violência, tanta a morte, e tudo isso, no vazio do noticiário, meramente sensacionalista, acaba, após espasmos de nossa emotiva postura, a letargiar-nos num simples dizer: “vida que segue”.
Sim, a vida há de seguir, mas jamais como demonstração de conformismo, que é o alimento do inevitável.
A vida há de seguir como o desafio que nos desperta, que nos provoca, que nos move.
Ser livre é desafiar-se, constantemente, para assumir condutas na dimensão do espaço em que vivemos, não importa se amplo ou reduzido esse espaço, mas assumir condutas que nos revelem no que somos, e como somos, e assim rompendo a estagnação da mesmice castradora, pormo-nos em missão para o encontro, que dissipa o que nos distancia; para a construção do que vale ser construído: a dignidade da mulher e do homem em todas as etapas de sua vida.
Retorno a Paulo. À comunidade dos Gálatas, ele disse:
“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. (Gl. 5, 1).
Sim, e com todo o respeito às minha irmãs e aos meus irmãos ateus e agnósticos, a palavra espírito significa: sopro. “Deus é espírito” afirma o evangelista João, no Capítulo 4, versículo 24, desse seu escrito.
O sopro gera o movimento. O movimento rompe a inércia. Rompida a inércia desabrocha a vida. A vida faz nascer a liberdade. E a liberdade é o caminho do ser para que se possa sempre ser.




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O TEMPO

                                                

Começar por onde, este artigo?
Tantos acontecimentos pessoais, familiares, comunitários, institucionais.
A necessidade de ter o tempo, que inicia e o tempo, que termina: a necessidade do calendário. É mesmo necessário o calendário?
Pronto: começo motivado por essa pergunta.
Sim, é necessário o calendário porque necessário é o tempo.
O tempo, não o tenho como marcha inexorável do alvorecer para o decair.
Também não o tenho, o tempo, como o percurso da fatalidade, quando o existir é o mero suceder do que já está determinado.
O tempo, no acontecer dos dias, é a possibilidade real do ser além do que se é, portanto o tempo não nos imobiliza, mas impele-nos à contínua descoberta. O tempo, então, convida-nos a sonhar porque o sonho é a oportunidade concreta do existir.
Sonhar é realizar.
O tempo nas mutações corpóreas ele, o tempo, é o caminho do aprendizado.
Aprender o quê, ou para que, perguntará o cético, que é aquele que assim o é por desdenhar do tempo, quando os limites mentais e físicos afloram, e definhamos?
Ora, justamente porque há o tempo, mulheres e homens movimentam-se em ciclos, e os ciclos da existência humana são plenos de sentido não só para o ser em si, como para o ser com os outros, desde que, e justo porque são ciclos concatenados, tudo se ponha em abrir-se ao aprendizado que a etapa anterior sempre propicia à etapa seguinte.
Aprender, não importam as vicissitudes que experimentamos porque, se aprendemos, elas não nos dominarão, é compreender o tempo.
O Deus-Amor, porque nos ama, e não há medida do amor divino por nós, porque nos deu a conhecer tudo sobre Ele próprio (Jo. 15, 15), percorreu, Ele também, o tempo.
O dia 25 de dezembro, já tão próximo, é a linda celebração do Eterno que, ao nascer, se inseriu no tempo, como que a nos dizer que o tempo, por mais diminuto que seja, já completa o existir porque o tempo é a impossibilidade do nada.

                      Proveitoso Tempo de Natal a todas e a todos.


                             

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A CULTURA É A EXPRESSÃO DO AUTÊNTICO



O inciso IV, do artigo 5º, da Constituição Federal é taxativo:
“É inviolável a liberdade de consciência e de culto, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.
Cristalino está que razão – consciência – e fé –crença – irmanam-se na integralidade da pessoa e a expressão de atos e condutas a tanto positivar não admite restrição de qualquer ordem, justo porque se constituem, repito, em expressão da própria pessoa.
Consequência natural é a presença, ainda no analisado texto constitucional, da garantia às celebrações do culto em si e nos locais a que se destinam.
Em seção destinada à cultura, o preceito constitucional assim está posto no artigo 215:
“O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”.
Nos dois parágrafos, que se seguem, e no artigo 216, fica nítido que “as manifestações culturais” são definidas como tudo o que se insere no amplo âmbito “das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras e de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” (§ 1º - artigo 215), inclusive no que diz respeito a “datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais” (§ 2º - do artigo 215) porque o patrimônio cultural brasileiro está na “referência à identidade, à ação, à memória de diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (artigo 216).
Fixadas essas linhas mestras de abordagem, até porque se definem em sede constitucional, importa, agora em passo seguinte, que nos detenhamos, topicamente, no caso, posto que há de se examinar fato a fato dada a impossibilidade de se assumir postura de generalidade que, sem dúvida, estamparia viés fundamentalista no que se examina e, então na avaliação de cada caso, ter-se a justa resposta.
O fato é: homem nu, segurando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, encobrindo sua genitália, põe-se a ralar a imagem até que ela se desfigure, por completo.
Óbvio está que não existe qualquer manifestação cultural nesse fato.
Bem pelo contrário, há claro vilipêndio público a objeto de culto religioso, de cunho católico, que se identifica no “ralar” a imagem até que desapareça e completa subversão sobre o significado cultural de Nossa Senhora Aparecida, que radica na defesa e proteção da escravizada comunidade negra e dos pobres pescadores ribeirinhos, na época do Brasil-Colônia, subjugados pelos ricos fazendeiros e a Coroa portuguesa. Detalhe verdadeiramente grotesco: o homem, que segura a imagem, é negro.
Tem-se diante o desrespeito eloquente à proteção das manifestações culturais alusivas à cultura afro-brasileira.
Outro fato de igual reprovação: material, totalmente reconhecido como hóstias, é identificado com órgãos excretores e reprodutores da mulher e do homem em exposição pública patrocinada pelo banco Santander.
Nisso tudo – e sem a necessidade de comentários outros – o que não se tem, indubitavelmente, é “manifestação cultural”.
Tem-se, isso sim, mera prática apelativa, sensacionalista, típica dos aproveitadores mercantis, de ocasião.
A cultura é expressão do autêntico.
Cultura, insisto, não se concilia com manipulações.
  


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

FASCISTAS E DEMOCRATAS USAM A MESMA TOGA”

São palavras do Desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e Professor da Universidade Federal no mesmo Estado, magistrado Lédio Rosa de Andrade, pronunciadas em discurso em homenagem a seu amigo-irmão Luis Carlos Cancellier, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, que terminara com sua própria vida, no dia 2, próximo passado.
Estamos em tempos obscuros.
Obscuros porque as ditas elites, que tem a responsabilidade maior na condução de todos os assuntos pertinentes ao bem comum, na especificidade de como se apresentam – seja no governar, no legislar e no julgar – divorciaram-se, por completo, de tão valorosa missão.
O que se assiste é a prática reiterada e desavergonhada do corporativismo a engendrar “pactos”, “soluções de ocasião”, “arranjos”, que espelham a covardia no assumir posições concretas, objetivas, comprometidas com a verdadeira adoção de medidas para, paulatinamente, construírem a sociedade fraterna, porque justa.
Não, nada disso se objetiva.
Familiariza-se e eterniza-se a representação popular; o jogo de palavras e gestual estudado formatam o quadro, assim manipulado, para o exercício da administração pública; o desequilíbrio verborrágico incessante atropela, letalmente, a serenidade e a imparcialidade de todos quantos decidem.
Torno ao Professor e Desembargador Lédio Rosa de Andrade a dizer:
“É claro que um Estado Democrático de Direito precisa de imprensa livre. É claro que um Estado Democrático de Direito precisa de independência do Judiciário. Que o Judiciário e os juízes julguem, livremente, sem pressão. Só que, também, é claro que essas instituições absolutamente importantes para a democracia a cada dia, a cada momento, são deturpadas. Em nome da liberdade de imprensa, se exerce a liberdade da empresa privada para impor desejos privados à coletividade. Em nome da liberdade de julgar, neofascistas humilham, destroem, matam”. (Jornal do Brasil: publicação eletrônica do dia 07/10 às 13h.24).
E, com pleno acerto encerrou o Professor e Desembargador Lédio Rosa de Andrade:
“Bertolt Brecht já nos disse. Já estão levando não só os vizinhos, já estão levando nossos amigos próximos e vão nos levar. A vida é isso, companheiros. É luta permanente. E a democracia não permite descanso. Não permite descanso. Eu, hoje, como professor da UFSC sou uma pessoa que tem orgulho e alegria. Como desembargador, tenho vergonha. Porcos e homens se confundem. Fascistas e democratas usam as mesmas togas”. (publicação citada).

Trago, aqui e agora, porque tão oportunas e sábias, as palavras do Papa Francisco, na mensagem quaresmal para o corrente ano, motivadas pela cena evangélica do pobre Lázaro e o homem rico:
“O apóstolo Paulo diz que a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz. Depois a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efêmera da existência (cf. ibid., 62).
O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação”. (mensagem quaresmal do Papa Francisco para o ano de 2017).
Comecei este escrito, dizendo: “Estamos em tempos obscuros”.
Sim, estamos.
Aos 16 anos de idade, e esta semana chego aos 71, sonhando e me empenhando com tantas e tantos mais por nosso Brasil, brasileiro; por nosso Brasil honesto, justo, fraterno e vi-me, então aos 18 anos de idade, derrotado, destroçado, sofrido, mas permaneci fiel ao sonho, que sonhei. Não o abandonei, e o dia amanheceu porque nuvens obscuras nunca impedirão que o sol sempre nasça, e ilumine.
Com muita alegria, venho de ler palavras do Papa Francisco, ditas há pouco, na Audiência Geral da quarta-feira, dia 20 de setembro, que me fazem tão bem, porque me entusiasmam a não desistir. Diz Francisco:
“Cultiva ideais. Vive algo que supera o homem. E mesmo se um dia estes ideais apresentarem uma conta alta a pagar nunca deixe de os conservar no coração. A fé obtém tudo. Se erras, levanta-te: nada é mais humano do que cometer erros. E aqueles mesmos erros não se devem tornar para ti uma prisão. Não fiques preso nos teus erros. O Filho de Deus veio não para os sadios, mas para os doentes: portanto, veio também para ti. E se errares ainda no futuro, não temas, levanta-te! Sabes porquê? Porque Deus é teu amigo. Se a amargura te atinge, crê firmemente em todas as pessoas que ainda trabalham pelo bem: na sua humildade está a semente de um mundo novo. Frequenta pessoas que conservam o coração como o de uma criança. Aprende da maravilha, cultiva a admiração. Vive, ama, sonha, crê. E, com a graça de Deus, nunca te desesperes”. (mensagem quaresmal mencionada).

                                          Paz e Bem.




   

domingo, 10 de setembro de 2017

"IR AO ESSENCIAL; RENOVAR-SE; ENVOLVER-SE".



Um homem, vestes brancas, semblante decidido e alegre, percorre o mundo. Sua mensagem, sincera e honesta, porque é expressão eloquente do seu agir, é de paz e solidariedade, principalmente com os excluídos, com os postos à margem, desejando ardentemente a construção da fraternidade universal.
Na Colômbia, ontem, sábado 9 de setembro, na cidade de Medellín, marcada por ter sediado cartel de tráfico de drogas, diante de cerca de um milhão de pessoas, esse homem, o Papa Francisco ensina-nos:
“A liberdade de Jesus contrasta com a falta de liberdade dos doutores da lei daquele tempo, que estavam paralisados por uma interpretação e prática rigoristas da lei”. (trecho da homilia do Papa Francisco na celebração eucarística em Medellín).
No Brasil, ontem, sábado 9 de setembro, brasileiras e brasileiros mergulhavam em sentimentos embaralhados de decepção, revolta, pessimismo em consequência das atitudes de nossos doutores da lei, espalhados em cargos de elite, e de atitudes de empresários, de visibilidade maior, que se consorciam e se consorciaram, anos a fio, em reiteradas práticas de corruptores e de corruptos.
Não é bom, não é útil, que nos deixemos dominar por tais sentimentos, ainda que compreensíveis.
Como reagir, então?
Retornemos à homilia do Papa Francisco.
Ele nos propõe três (3) atitudes.
“Ir ao essencial” que, para ele, está em “caminhar em profundidade rumo ao que conta e tem valor para a vida”. E prossegue: “Jesus ensina que a relação com Deus não pode ser uma fria aderência a normas e leis, nem o cumprimento de certos atos exteriores, que não conduzem a uma mudança de vida”. (trecho da mencionada homilia).
“Renovar-se” que acontece quando abandonamos nossas “comodidades e amarras”, as famosas “zonas de conforto” e nos “pomos em saída”, sem medo, e também sem nos jactarmos, mas no espaço de nossa presença familiar, laboral, de vizinhança, dos círculos que frequentamos, nos conduzimos, concreta e objetivamente, em comportamentos de cidadania ativa, que se traduzem na participação consciente e vinculada à afirmação cotidiana e incessante dos valores da construção do bem comum contra a maré da tecnocracia e do finalismo econômico-financeiro porque a técnica e a economia hão de ser sempre consideradas como instrumentos à realização do bem comum, jamais como objetivo primordial de exaltação de uns poucos em detrimento de tantos desamparados e degradados em sua dignidade.
A dignidade humana não se concilia com a segregação.
A dignidade humana deita raízes, e assim se manifesta, na possibilidade de ser e de ter, na dimensão da singularidade de cada um, pela oferta do que é próprio ao próximo, jamais pelo apossamento exclusivista e excludente.
“Envolver-se” é o terceiro passo que nos propõe o Papa Francisco.
Aqui, porque tão precisas, e encerrando este artigo, suas próprias palavras, na mencionada homilia:
“A terceira palavra: envolver-se. Envolver-se, ainda que para alguns isso pareça sujar-se, manchar-se. Como David e seus homens que entraram no templo porque tinham fome e os discípulos de Jesus entraram na seara e comeram as espigas, também hoje nos é pedido que cresçamos em ousadia, numa coragem evangélica que brota de saber que são muitos os que têm fome, fome de Deus, fome de dignidade, porque dela foram despojados. E, como cristãos, ajudá-los a saciar-se de Deus; não lhes dificultar nem proibir esse encontro. Não podemos ser cristãos que levantam continuamente a bandeira de “Passagem Proibida”, nem considerar que esta parcela é minha, apoderando-me de algo que absolutamente não é meu”.

                                               Paz e Bem.


terça-feira, 15 de agosto de 2017

CAPÍTULO DAS ESTEIRAS

                             

“... o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos...”, valho-me dessas expressões de São João evangelista, que iniciam sua Primeira Carta, para dizer dos dias na cidade de Aparecida para o Capítulo Nacional das Esteiras – 2017, da Ordem Franciscana, no Brasil.
Mulheres e homens de várias gerações irmanaram-se
E quando, verdadeiramente, nos irmanamos somos dóceis e, assim, pacientes; somos alegres e, assim, “esperamos contra toda a esperança”; somos construtores da paz e do bem e, assim, não nos intimidamos em tempos de desordem e fragmentação.
Preferimos, Ângela e eu, as 38 horas de ônibus – o percurso Brasília-Aparecida-Brasília- e o singelo hotel, com o sintomático nome de Libertador, em cenário que, para nós, equivaleu ao caminhar, carregando e repousar, estendendo, as esteiras.
Ouvimos as vozes femininas e masculinas a dizer de si, no sair de si, e realizar o encontro fraterno, que testemunha o envolvimento consciente e firme para marcar a adesão contínua ao convite de Deus para o acolher e cuidar de nós mesmos; de nós com o nosso outro eu, ou seja, nossas irmãs e nossos irmãos, todas e todos, sem distinções; de nossa casa, portanto, comum na reverência aos elementos que a compõem: a terra, que é sempre caminho; o ar, que é sempre impulso; a água, que é sempre mergulho e o fogo, que é sempre superação.
Ouvimos vozes femininas e masculinas em cantos de celebrar, de agradecer, de conduzir. Aqui, na proposta a que nos conduzamos no, e para, o mundo na exatidão das palavras de refrão, cantado com tanto entusiasmo:
“Vamos todos voltar a Assis
Reviver o que Francisco viveu
Para então espalharmos pelo mundo
Paz e Bem e a Misericórdia de Deus”.
Sim, num mundo que nos centra no aqui e agora; na absolutização do momento presente; no circunscrever-se ao que se pode ter e ganhar, a qualquer preço; num mundo que não admite volta, devemos voltar.
Voltar e ver e voltar a ver que é o que acontece quando o passado se atualiza no presente, vale dizer, quando tornamos à nossa “fonte de água viva” que, jamais secando, é guia permanente nessa nossa travessia.
Jesus, transeunte, é a Palavra que não passa.
Francisco, transeunte, é a Ação que dinamiza.
Clara, transeunte, é a Oração que sustenta.
Não nos é dado esmorecer; não nos é dado desistir.
O cansaço há de gerar a pausa, para recomeçar; não se faz em ponto final.
Esse é o sentido das palavras de Francisco, plenas de entusiasmo, ainda que proferidas no ocaso de sua vida, como registradas por Tomás de Celano.
“Vamos começar a servir a Deus, meus irmãos porque até agora fizemos pouco, ou nada”. (Tomás de Celano – Primeira Vida de São Francisco – Fontes Franciscanas – pg. 256).
Com efeito, a perfeita adesão a Deus, por Jesus Cristo, é o caminhar infinito porque só caminhando nos encontramos conosco; encontramos a irmã e o irmão; encontramos nossa casa comum; e, então, encontramos o próprio Deus.
“O que ouvimos, o que vimos, o que contemplamos” em Aparecida é a certeza de que
“o acontecer humano não é circuito fechado. Percorrendo-o, movimentamos; movimentando, existimos em possibilidade infinita.” (Claudio Fonteles – Três Momentos da Doutrina Social da Igreja – p15).
Encerro com o que está posto no Compêndio da Doutrina Social da Igreja – nº 47 – pg. 39:
“Por isso, alienado é o homem que recusa transcender-se a si próprio e viver a experiência do dom de si e da formação de uma autêntica comunidade humana, orientada para o seu destino último, que é Deus. Alienada é a sociedade que, nas suas formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a realização deste dom e a constituição dessa solidariedade inter-humana”.

                                    Paz e Bem.