quarta-feira, 27 de julho de 2016

HARMONIA

  
HARMONIA

Na revista Mundo e Missão, publicação do PIME – Pontifício Instituto das Missões -, da qual, em boa hora, tornei-me assinante, leio depoimento da irmã Silvia Leoni, missionária da Imaculada, de saída para Bangladesh:

“É a harmonia que está na base da vida do cristão e que permite a convivência do negativo com o positivo, pois confiança sem medo seria apenas ilusão, enquanto o medo sem confiança seria só destruição.” (Revista Mundo e Missão – nº 204 – agosto 2016 – pg. 43).
Detenho-me a refletir sobre essas palavras, que aguçaram o meu ser, tão logo as li.
A mensagem de Jesus centra-se na harmonia.
E por que assim?
Porque enquanto existir este mundo, em que estamos, é fantasia concluirmos que tragédias não acontecerão, que os sofrimentos cessarão.
É realidade inexorável que os dois polos por entre os quais nos conduzimos – a alegria e a dor – coexistam, dada a imperfeita condição humana.
A harmonia, expressão da paz e do amor, é que promove a reconciliação do nosso ser, quando fragmentado em si mesmo e dilacerado na relação com o outro, e porque nos reconciliamos lugar não há para divisões pessoais e coletivas.
Mas o que é a paz, pergunta-me, quem sabe em tom de desafio, o cético, como há alguns decênios vi e ouvi um cético, por esse mesmo modo, indagar o filósofo Alceu de Amoroso Lima?
Sereno, Alceu de Amoroso Lima simplesmente ensinou: “A paz é o equilíbrio no movimento”.
Sim, a paz não é a ausência de conflitos, não é o alheiar-se dos conflitos, não é o retirar-se dos conflitos. A paz, porque convive com os conflitos, é o mover-se incessantemente e jamais deprimir-se ante situações e fatos, ordinários ou extraordinários, movendo-se conscientemente, como bem orienta São Paulo – “examinai tudo e guardai o que é bom” (1 Tessalonicenses 5, 21) -, eis que movimentar-se é por-se, permanentemente, em missão; nunca recluir-se.
E o amor, o que se dirá do amor? Veja o que nos informa, sempre espalhafatosamente, a comunicação midiática e como ainda dizer do amor, continuará objetando nosso irmão cético?
Aqui, desenvolvo as ideias da irmã Silvia Leoni.
Amor não é sonho, não é idealização, não é ilusão. Porque é confiança, o amor é doação concreta e entrega real; é por-se em harmonia que, se negada, não nos conduzirá ao desistir porque, se desistimos, então o medo venceu a confiança e a consequência fatal é mesmo a destruição. Todo extremista, porque não confia absolutamente, é derrotado pelo medo e destrói, absolutamente.
No próximo dia 2 de agosto, os franciscanos, ordenados e seculares, e as irmãs clarissas, e irmãs e irmãos das terceiras ordens religiosas, celebrarão o “Perdão de Assis”, por seus 800 anos.
Em 1216, Francisco de Assis, na humilde Porciúncula, em oração, teve por Deus concedido o perdão, em indulgências, a todos quantos se arrependessem e, portanto, confessassem suas faltas.
Orar, ou seja, conversar sinceramente, é harmonizar-se com Deus. A harmonia é a sinfonia das criaturas, assim todas convergindo para Deus.
Termino com palavras do que se convencionou chamar a “Oração da Despedida”, de Jesus Cristo, a dizer, na celebração da unidade perfeita:


“Eu não rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pelas palavras deles. Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que eles sejam um, como  nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitamente unidos, e o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste como amaste a mim”. (Evangelho de São João 17, 20-23).

terça-feira, 7 de junho de 2016

PARA QUE SE VÁ ALÉM DO QUE SE POSSA IR

                            

Não cessam, e não cessarão, por um bom tempo, notícias sobre a corrupção no cenário administrativo-político do Brasil.
Atingimos o clímax de processo de deteriorização e podridão de sistema político, evidentemente falido.
Falido porque, fundamentalmente, a política partidária traveste-se, no nosso País, em forma despudorada de enriquecimento pessoal e criminoso.
Motivador para a permanência desse quadro é o instituto da reeleição indefinida e da familiarização dos quadros políticos.
Com efeito, torna-se cada vez mais comum não só a sucessão de avós, pais e filhos, e mesmo cônjuges, na herança de mandato popular, como também o desempenho simultâneo de cargos eletivos a retratar a constituição de feudos familiares no açambarcamento e monopólio da representação política.
É preciso que se dê “basta” a esse quadro profundamente deletério e, claramente, atentatório à democracia, regime que se notabiliza justamente por estimular e ensejar a alternância dos detentores de mandatos eletivos.
Cabe, aqui, realçar o magistério da Doutrina Social da Igreja a dizer sobre “as tarefas da comunidade política”:
“168. A responsabilidade de perseguir o bem comum compete não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade política. Na verdade, o Estado deve garantir coesão, unidade e organização à sociedade civil de que é expressão, de modo que o bem comum possa ser conseguido com o contributo de todos os cidadãos. O indivíduo humano, a família, os corpos intermédios não são capazes por si próprios de chegar a seu pleno desenvolvimento; daí serem necessárias as instituições políticas, cuja finalidade é tornar acessíveis às pessoas os bens necessários – materiais, culturais, morais, espirituais – para levar uma vida verdadeiramente humana. O fim da vida social é o bem comum historicamente realizável.” (leia-se: Compêndio da Doutrina Social da Igreja nº 168 – pg. 103 – edições Paulinas, grifei).
E prossegue esse Documento:
“169. Para assegurar o bem comum, o governo de cada País tem a tarefa específica de harmonizar com justiça os diversos interesses setoriais. A correta conciliação dos bens particulares de grupos e de indivíduos é uma das funções mais delicadas do poder público. Além disso, não se há de olvidar que, no Estado democrático – no qual as decisões são geralmente tomadas pela maioria dos representantes da vontade popular -, aqueles que têm responsabilidade de governo estão obrigados a interpretar o bem comum do seu País não só segundo as orientações da maioria, mas também na perspectiva do bem efetivo de todos os membros da comunidade civil, inclusive dos que estão em posição de minoria”. (documento citado nº 169 – pg. 103).
Deploravelmente, o que o exercício da política partidária brasileira, e já por décadas, nos mostra é a desenfreada exaltação do bem pessoal – negociatas contínuas, contas bancárias e utilização de mecanismos financeiros no exterior, superfaturamento de obras públicas a que se locupletem empresários e políticos – eliminado qualquer compromisso na promoção do bem comum.
Torno ao magistério do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, e reproduzo:
“Nesta perspectiva, torna-se imprescindível a exigência de favorecer a participação, sobretudo dos menos favorecidos, bem como a alternância dos dirigentes políticos a fim de evitar que se instaurem privilégios ocultos; é necessária ademais uma forte tensão moral para que a gestão da vida pública seja fruto da co-responsabilidade de cada um em relação ao bem comum”. (documento citado nº 189 – pg. 114).
Sim, “os privilégios ocultos” estão sendo postos às claras. É imperativo que tal perdure porque atitude inerente à democracia.
Eis porque também no âmbito judicial, salvo a que se resguarde a intimidade das pessoas em litígio – o que, por óbvio, não pode ser considerado quando essas pessoas assumem condutas no desempenho de função pública -, lugar não há para que investigações e processos, mormente de natureza criminal, permaneçam ocultos.
Insisto: é marca inegociável da democracia a publicidade em tudo o que diga respeito ao bem comum.
A partir de frase que disse – “Pecadores, sim. Corruptos, não” – o Papa Francisco foi questionado pelo jornalista Andrea Tornielli e respondeu:
“A corrupção é o pecado que, em vez de ser reconhecido como tal e de nos tornar humildes, é transformado em sistema, torna-se um hábito mental, um modo de viver. Não nos sentimos mais necessitados de perdão e de misericórdia, mas justificamos a nós mesmos e aos nossos comportamentos. Jesus diz aos seus discípulos: se alguém te ofende sete vezes ao dia e sete vezes volta a ti para pedir perdão, perdoa-lhe. O pecador arrependido, que depois cai e recai no pecado por causa de sua fraqueza, encontra novamente perdão, desde que se reconheça necessitado da misericórdia. O corrupto, ao contrário, é aquele que peca e não se arrepende, aquele que peca e finge ser cristão, e com a sua vida dupla provoca escândalo”. (leia-se: O nome de Deus é misericórdia – pg. 117/118 – editora  Planeta, grifei).
E conclusivo:
“A corrupção não é um ato, mas uma condição, um estado pessoal e social no qual a pessoa se habitua a viver... O corrupto é aquele que se indigna porque lhe roubaram a carteira e se lamenta pela falta de policiais nas ruas, mas depois engana o Estado, sonegando impostos, e talvez demitindo os empregados a cada três meses para evitar contratá-los por tempo indeterminado, ou então possui trabalhadores não registrados. E depois conta vantagem de tudo isso diante dos amigos. É aquele que talvez vá à missa todo domingo, mas não vê nenhum problema em aproveitar a sua posição de poder, para exigir o pagamento de propinas. A corrupção faz perder o pudor que protege a verdade, a bondade, a beleza.” (livro citado pg. 120/121, grifei).
“A verdade, a bondade e a beleza” concedeu-me Deus no sábado 28 de maio vivenciá-las por algumas horas quando me decidi, na companhia de algumas irmãs e irmãos da fraternidade franciscana, dirigir-me à área, aqui em Brasília, conhecida como: “o Lixão da Estrutural”.
Ali convivemos com irmãs e irmãos que sobrevivem dos resíduos do lixo – são catadores de lixo – e lhes entregamos, porque merecem, 450 quentinhas de arroz com frango, e feijão, e doces e refrigerantes: a comida que preparamos desde cedo, ofertada de coração. Trocamos breves palavras, e sorrisos sinceros, e gestos fraternos e oramos o Pai Nosso. Até a saudação vascaína, ao ver irmãzinha com o gorro de nosso clube, ali ecoou.
Essa manhã-tarde de sábado não vou deixá-la extinguir-se em mim. É sopro do Espírito Santo para que vá além do que possa ir.
   


sábado, 14 de maio de 2016

LIBERDADE

                                               

Dois textos, presentes na Constituição Federal, pedem nossa reflexão a propósito do tema apresentado no título acima: são os incisos IV e VI, do artigo 5º, que preceituam:
“IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.
VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença...”.
É de se reconhecer a presença, em ambos os textos, de valor fundante: a liberdade.
Esse valor fundante a que, efetivamente, seja como tal considerado não se cristaliza em abstração, não é enunciado principiológico.
A liberdade, para que exista, necessita concretizar-se em atos, necessita fazer-se real. Está por bem nítida, nesse sentido, a expressão: “é livre a manifestação...”.
Não há liberdade no silêncio do pensamento.
Liberdade é o pensamento exteriorizado, explícito, manifestado.
Ainda no exame desse inciso IV, do artigo 5º.
Quem quer que exerça a liberdade, exerça-a estampando a sua identidade seja ela pessoal, seja ela profissional, porque assim como, reitero, liberdade é o pensamento exteriorizado, liberdade é também a manifestação identificada.
O anonimato, no que se veicula, é o esconderijo dos covardes e o que é dito, sem que se saiba por quem, é nada.
Prossegue a Constituição Federal na construção desse alicerce vital da democracia, que é a liberdade, e apresenta-a como afirmação límpida da integralidade da mulher e do homem. Com efeito, a liberdade contempla a pessoa na sua dimensão racional -liberdade de consciência- e na sua dimensão espiritual -liberdade de crença-, portanto, na sua totalidade subjetiva daí porque tudo o que se faz integral é inviolável.
Cabe bem, aqui, assim o considero, o ensinamento do filósofo humanista Emmanuel Mounier a dizer:
“A pessoa é uma interioridade que tem necessidade de uma exterioridade. A palavra existir indica pelo seu prefixo que ser é expandir-se, exprimir-se. Esta muito primitiva tendência é que, sob sua forma ativa, nos leva a exteriorizar os nossos sentimentos na mímica ou na palavra, a por a marca de nossa ação nas obras visíveis, a interferir nos problemas do mundo e dos outros. Todas as dimensões da pessoa se sustêm e se compõem. A pressão que a natureza exerce sobre nós, o trabalho que lhe corresponde, não são somente fatores de produção, são uma força de ruptura do egocentrismo e por isso mesmo fatores de cultura e de espiritualidade, tanto ou, sem dúvida, até mais do que fatores de poder e de riqueza. É preciso que não desprezemos tanto a vida exterior: sem ela, a vida interior tornar-se-ia incoerente, tal como, sem vida interior, aquela mais não seria que delírio.” ( leia-se: O Personalismo – pg. 66 ).
E, especificamente sobre a liberdade:
“É a pessoa que se faz livre, depois de ter escolhido ser livre. Em parte nenhuma encontrará a liberdade dada e constituída. Nada no mundo lhe garantirá que ela é livre se não entrar audaciosamente na experiência da liberdade.” ( livro citado – pg. 77 ).
“Sou membro do Ministério Público e sou contra golpe”, frase exposta em faixa por ocasião de evento público por promotoras e promotores de justiça, é frase completamente adequada à livre e identificada manifestação de consciência.
Ser público o evento é situação que mais propicia a tomada de posição por parte daquelas e daqueles que têm a missão constitucional de defesa e promoção “do regime democrático” (artigo 127 da Constituição Federal), mostrando-se objetivamente a todos os componentes da sociedade de que são servidores.
Obviamente, não se constituindo a frase em proselitismo político-partidário, insere-se a conduta das promotoras e promotores de justiça na fiel observância de sua atividade funcional, que jamais pode se circunscrever ao silêncio dos burocratizados gabinetes, mas clama pelo envolvimento concreto com os assuntos essenciais da “polis” porque, e mais uma vez na sábia trilha de Emmanuel Mounier:
“No entanto, se a política não é tudo, está em tudo” (livro citado – pg. 129).
Parodiando e para terminar:
No entanto, se a liberdade não é tudo, de nada vale. 




sábado, 9 de abril de 2016

ALGUÉM ESTEVE, E ESTÁ, NO MEIO DE NÓS



 Mulher descabelada em palco a berrar frases e palavras de ordem, que vociferam a carga pesada da virulência, aplaudida por um tímido nonagenário.
Jovem magistrado que não hesita em expor-se, publicamente, em protesto político contra pessoa determinada e, assim mesmo, chama a si holofotes para julgar pleito contra ato dessa mesma pessoa.
Holofotes também são acionados por promotores de justiça em exposição midiática para agitar pedido de prisão preventiva contra determinado líder político e, quando a magistrada não recebe tal pleito, dizendo-os sem atribuições funcionais ao que ajuizaram, calam-se esses promotores de justiça, nada dizem, e desaparecem.
São tempos difíceis, mas não devemos temer os tempos difíceis, desde que nós os consideremos como propícios ao aprendizado.
Mas que aprendizado podemos extrair da balbúrdia, do grotesco, do sensacionalismo direcionado e superficial?
Ora, o passo a se dar é justamente esse, posto em indagação: inserir os episódios, que acontecem, num fio condutor, ou dizê-los atomizados, sem qualquer ligação entre si?
Tenho para mim que, na vida, tudo está em contínua interação. Mesmo quem se põe alheio não deixa de fazer referência ao do que se afasta.
Portanto, há sempre o fio condutor, ou mais de um fio condutor, no que se passa.
E qual é o fio condutor nos três fatos, acima abordados?
A total falta de serenidade no responder às indagações do cotidiano.
Realmente, a velocidade é a marca do comportamento do que se convencionou chamar de pós-modernidade: um toque, o digitalizar e o resultado é imediato; consome-se, no ato; usam-se, pessoas e coisas, no instante. O cenário, que assim surge, é o da informação avassaladora, ininterrupta, destituída de qualquer análise ponderada, fundamentada e consistente.
Nunca se informou tanto; se formou tão pouco e se deformou em demasia.
O Papa Francisco, em seus escritos tão cheios de sabedoria, tem nos ensinado muito.
Colho, e ofereço-lhes amigas e amigos leitoras e leitores, trecho presente na Carta Encíclica “Laudato Si”, que considero pertinente:
“222. A espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo. É importante adotar um antigo ensinamento, presente em distintas tradições religiosas e também na Bíblia. Trata-se da convicção de que “quanto menos, tanto mais”. Com efeito, a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se serenamente presente diante de cada realidade, por menor que seja, abre-nos mais possibilidades de compreensão e realização pessoal. A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar e saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece, sem nos apegarmos ao que temos nem nos entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres.” ( leia-se Laudato Si – pg. 177 ).
Vejam vocês que nos dias de hoje, e para refrear arroubos emocionais, destemperos apressados, e chamar a atenção daquele que assim se conduz para o equilíbrio no ser, dizemos, popularmente: “menos Fulano, menos...
Assim, aquela mulher não teria se escabelado e vociferado; o magistrado não teria se exposto desnecessariamente e os promotores de justiça não teriam protagonizado incoerência.
Mais uma eloquente passagem da “Laudato Si”, tão apropriada:
“225. Por outro lado, ninguém pode amadurecer em uma sobriedade feliz, se não estiver em paz consigo mesmo. E parte de uma adequada compreensão da espiritualidade consiste em alargar a nossa compreensão da paz, que é muito mais do que a ausência de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se em um equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. A natureza está cheia de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distração permanente e ansiosa ou do culto da notoriedade? Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, em uma pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm a seu redor.” ( leia-se: Laudato Si – pg. 179 ).
Realmente, é fundamental desejar bom-dia para quem pensa de modo diverso do nosso pensar; desenvolver a paciência de ouvir, sem se apressar em redarguir aquele que fala, mesmo que seu falar seja lento, ou repetitivo; por-se no lugar de quem é diferente de nós e, assim, viver o próximo não como alguém que está fora de nós, mas que é o nosso “outro eu”, por isso que nos envolvemos com ele.
Alguém esteve, e está, no meio de nós, sempre nos oferecendo o seu viver: Jesus Cristo.

                                            Paz e Bem!




domingo, 13 de março de 2016

A CONSTITUIÇÃO E O MINISTÉRIO PÚBLICO: reflexões necessárias.

                                                     
A Constituição federal de 1988 definiu o Ministério Público como instituição essencial ao regime democrático, que lhe cumpre defender, porque na Democracia abre-se pleno espaço ao exercício dos direitos individuais e comunitários.
Instituição que, é seus membros – promotoras e promotores, procuradoras e procuradores – devem ter bem presente que o trabalho institucional não condiz com arroubos espetaculares, protagonismos em demasia, exaltações midiáticas e prejulgamentos.
Se a imprensa, no papel que assume de difundir o furo jornalístico, o estrépito posto em manchete, adota meios condizentes a esse propósito, todavia o compromisso institucional dos membros do Ministério Público orienta para o saber assumir o controle da situação: conduzir, não se deixar conduzir. Prestar, sim, contas à sociedade do desempenho de sua missão constitucional, mas sempre, e quando tenha formado sua convicção serena, fundada e objetiva, afastando-se do emitir juízos meramente opinativos, vale dizer, advindos e carregados de ilações puramente noticiosas.
A propósito, não se pode, em primeiro lugar, confundir figuras processuais absolutamente distintas: a testemunha, o indiciado, o réu. O que é lícito aplicar a um é ilícito aplicar a outro. Todos, porém, sob a proteção da lei e mediante o devido processo legal adequado a cada hipótese e situação.
Lembre-se, ainda, que não existe a figura equivocadamente chamada de investigado. O que legitimamente se investiga é o fato; não a pessoa. Se para leigos e a mídia pouco informada é compreensível a confusão, isso, porém, é inaceitável para um magistrado ou membro do Ministério Público. Escolher um suposto “criminoso” e a partir daí “investigá-lo” e constrangê-lo para descobrir supostos crimes é inverter a lógica legal e afrontar princípios fundamentais de Direito Processual e Penal. É puro arbítrio, que a ordem jurídica condena e sanciona.
Condução coercitiva e prisão preventiva igualmente não se confundem.
Não se nega a existência do instrumento da chamada condução coercitiva. É cabível, porém, exclusivamente quanto à testemunha recalcitrante, isto é, a que, tendo regularmente sido intimada a prestar depoimento na forma e nas hipóteses legalmente previstas, tenha se recusado injustificadamente a atender à convocação.
Quanto à prisão, é cabível unicamente para o réu ou o indiciado, e não para a testemunha.
 O manejar a restrição preventiva à liberdade em quadro de provisoriedade – quando as instâncias de conhecimento e recursal ordinária não tenham positivado o juízo de condenação – pede cautela.
A cautela se expressa na resposta clara às três indagações processuais para isso autorizar: há risco de fuga do indiciado ou do acusado? Ele tem a seu dispor o prejudicar a apuração dos fatos porque é capaz de coagir testemunhos, destruir provas? A conduta, em apuração, é de grave comprometimento da paz social?
Por certo que as respostas, se positivas, a essas indagações não se sustentam caso signifiquem conclusões abstratas, de “viés profético”, ou de “puro achismo”.
O utilizar-se, inapropriadamente, de qualquer desses instrumentos jurídicos a compelir testemunha, indiciado ou réu a prestar depoimento à margem do devido processo legal é de todo inadmissível. Impõe-se destacar, aliás, que o texto constitucional é claríssimo no garantir o princípio de que “ninguém pode ser obrigado a se auto-acusar”, inclusive propiciando estardalhaço no cumprimento da medida. Efetivamente isso não aproveita em nada a um processo válido, antes mancha a verdade institucional do Ministério Público.
Em síntese, procedimentos assim afrontosos à ordem constitucional ou legal sequer podem ser tidos como condução coercitiva ou prisão cautelar. Que o diga o juízo isento e competente para isso.
Que a atuação do Ministério Público contra a corrupção prossiga validamente, instaurando-se e ampliando-se os procedimentos legítimos e necessários e conduzidos de modo exemplar e amplo, sem seletividades, vieses ou desvios. É o que a lei impõe e a sociedade exige, para que não se convertam em meros instrumentos de perseguição, sensacionalismo e facciosismo nos chamados espaços e horários “nobres” da mídia.
Os que subscrevem este texto dedicaram, senão sua vida funcional toda, mas grande parte dela ao Ministério Público, e o fizeram em momentos decisivos de sua história.
Como não nos calamos antes, não podemos nos calar agora, porque o que nos move é propiciar reflexão madura e serena sobre os acontecimentos presentes na sociedade brasileira.
Jamais as soluções arbitrárias e ditatoriais, sempre o debate franco, respeitoso e claro: só assim aprendemos e vivemos Democracia.

Claudio Lemos Fonteles – Ex-Procurador-Geral da República.

Alvaro Augusto Ribeiro Costa – Ex- Presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

“Eu disse que, independentemente disso, ela ia ser feliz.”

Dois burocratas da Organização das Nações Unidas, a ONU, valendo-se do estrépito midiático, e a pretexto de se posicionarem sobre os casos de microcefalia, bradam pela eliminação dos fetos, em tal situação, conclamando países a que franqueiem as práticas abortivas.
É estarrecedor o nível de insensibilidade e de irresponsabilidade atingido em tal proceder.
Cientistas do mundo todo, debruçados ainda estão à busca da melhor compreensão desse fenômeno e esses arautos – que ironia, incrustados nos serviços de promoção dos direitos humanos da mencionada organização internacional - já sentenciam o que se há de fazer: matar as vidas humanas presentes em gestação.
Como sempre se escapa para o que se faz “up to date”, “politicamente correto”, sob o frívolo argumento de que somos “atrasados” ao não adotarmos essa solução, e assim fica obscurecida, e esquecida, primeira e necessária crítica aos governantes.
Com efeito, a proliferação do mosquito “aedes” está na razão direta da indesculpável negligência desses governantes em priorizar os temas de educação e saúde, só usados demagogicamente nas proximidades dos pleitos eleitorais, centrando as políticas de governos em faraônicas obras, expressão eloquente do nefasto conluio empreiteiros-governantes, de que se faz exemplo notório o nosso Brasil, sob a batuta glacial do sistema econômico-financeiro, que tudo quantifica, que tudo reduz a números, inclusive nossas próprias vidas, que não mais têm valor em si, mas que unicamente valem pelo que podem, materialmente, produzir.
Nesse quadro encaixa-se, perfeitamente, o simplismo na decisão dos burocratas da ONU.
Hoje, tudo se faz rápido: como eu quero, quando eu quero, onde eu quero. Nada, nem ninguém, me ouse estorvar.
“O médico disse que minha filha não ia andar, sorrir, falar. Eu disse que, independentemente disso, ela ia ser feliz.”
Gilcinea Rangel Pecenti, mulher e mãe, não desistiu de Luana quando, no 7º mês de gravidez, ao diagnóstico de microcefalia somou-se a identificação de paralisia cerebral.
Luana é hoje adolescente de 16 anos. Vale a pena ler a reportagem publicada pelo jornal “O Globo”, do domingo passado, dia 7, na página 3, e encantar-se com o gesto e sorriso largos – “o médico disse que ela não sorriria” – de Luana e a tão intensa alegria de sua mãe Gilcinea.
Agora, e a partir dessa matéria jornalística, outra constatação: acovardam-se governantes que, diante dessas situações, não ordenam à área de saúde, que comandam, imediatas e eficazes medidas de acesso a medicação e tratamento gratuito a todas essas vidas quer no momento intra-uterino, quer extra-uterino. Dinheiro há, sim, e de sobra. Basta que não escorram, diuturnamente, pelos lava-jatos, mensalões dos dias de hoje e cartas circulares – CC nº 5- ( escândalo do BANESTADO) do passado, e tantas e tantas outras situações, nesse festival ininterrupto da nefasta corrupção.
O jornal “O Estado de São Paulo”, anteontem, segunda-feira, dia 8, na editoria de saúde destacou que “a evolução de crianças com microcefalia depende de repetição e paciência.” Sintetiza, com objetividade, que:
“O caminho não é fácil, e ninguém diz que é, mas para quem tem a sorte de receber o tratamento e os incentivos adequados desde o nascimento, a vida com microcefalia pode ser longa, saudável e, por que não, feliz”.
Lamentavelmente vive-se o tempo da absolutização da estética e do menosprezo da ética.
Encerro com palavras plenas de sentido do Papa Francisco, escritas em sua tão valiosa Carta Encíclica “Laudato Si sobre o cuidado da casa comum”:
“Quando, na própria realidade, não de reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos – dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser humano se declara autônomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base de sua existência, porque em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus, e deste modo acaba por provocar a revolta da natureza.
118.Esta situação leva-nos a uma esquizofrenia permanente, que se estende na exaltação tecnocrática, que não reconhece nos outros seres um valor próprio, até à reação de negar qualquer valor peculiar ao ser humano.” ( leia-se: Carta Encíclica Laudato Si nº 117/118 – pg. 96/97 ).




         

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

AH! SE NÓS PUDÉSSEMOS

                                    

Homens há que tornam públicas cartas privadas, que escrevem, e que – tamanha lástima – revelam os apegos que têm a cargos públicos e ao loteamento dos mesmos para sempre gravitarem em torno de benesses espúrias.
Homens há que, transtornados pela insaciável sede de poder, maquinam ininterruptamente, engendram cotidianamente, esquemas ardilosos, valendo-se de um séquito de capachos, que lhe são agregados por inconfessáveis razões, irmanados todos em sucessão de barganhas.
Homens há que conspurcam até mesmo as práticas esportivas, enlameando atividades que deveriam se notabilizar pela competição transparente e cavalheiresca – o fair play -, transformando o que é sadia expressão de vida para todas as gerações em balcão corrupto de negociatas.
Homens há que, pelo mister profissional que desempenham, deveriam conduzir-se com discrição e cingir-se a pronunciamentos objetivamente fundamentados, mas resvalam para o estrelato e alimentam a ávida e superficial mídia jornalística com inadequadas afirmações porque carregadas de subjetivismo marcadamente emocional e rancoroso.
O Natal é o tempo propício para que não pactuemos com esse estado de coisas.
Não para que nos revoltemos, não para que percamos a esperança e nos tornemos lamurientos pessimistas, não para que execremos e excluamos essas pessoas.
O Natal, que é nascimento, é sempre a certeza do novo e a possibilidade presente, e real, do que nos escapa, mas que podemos alcançar: o imponderável que ultrapassa o inexorável.
Para valer-me do Papa Francisco, em escrito na Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia:
“Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, no comodismo que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói.” (Bula de Proclamação nº 15).
Sim, a indiferença, o comodismo e o cinismo obscurecem e impedem o sopro (= espírito) que a filiação divina nos legou, e que habita em nós, para que não desanimemos, para que, impulsionados, estejamos, sempre, não importa a dimensão do espaço atingido, mas estejamos, sempre, em missão.
Natal é despertar para a missão, e seguir.
Aliás, o convite do Deus-Amor é simples e definitivo: “segue-me”.
Jesus é o peregrino e o peregrino não se detém.
Deixo para vocês, leitoras e leitores de tanta paciência para comigo, como presença, não como presente, de Natal, essas palavras de D. Helder Câmara, lidas no livro “Um olhar sobre a cidade”:
“Se eu pudesse, à noite, no caminho das pessoas desanimadas, pessimistas, amargas, revoltadas contra tudo e contra todos, arranjaria roda de crianças brincando e cantando...
Se eu pudesse, na hora mais dura do enterro, quando o caixão é colocado terra adentro, eu faria com que voasse sobre as cabeças dos presentes um bando de passarinhos lembrando a Ressurreição.
Se eu pudesse na caminhada de quem enfrentasse estradas sem fim, sem luz, sem companhia, faria surgir vaga-lumes alumiando o caminho.
Se eu pudesse, daria ao arco-íris a força mágica de desfazer ódios, intrigas, divisões, de modo que ele valesse, de fato, como sinal de entendimento, de amizade e de paz.
Ah! Se eu pudesse! E se vocês pudessem, o que aconteceria?”